Os sistemas de reservas do mundo tratam uma aula de surf como tratam um quarto: uma coisa que existe, tem preço e ou está livre ou não. Só que uma aula depende do mar.
27 de agosto de 2026 · 5 min de leitura
Marcar uma noite de hotel é simples porque um quarto é sempre o mesmo quarto. Tem uma cama, tem um preço, e na terça-feira é exactamente aquilo que era na segunda. Todos os sistemas de reservas do mundo foram construídos à volta dessa ideia, e funcionam muito bem.
Uma aula de surf não é isso. A mesma aula, na mesma praia, com o mesmo instrutor e ao mesmo preço, pode ser a melhor manhã da vida de alguém ou uma hora dentro de uma máquina de lavar. O que decide não está no sistema de reservas: está no mar. A altura da onda, o período entre elas, a maré, e um vento que vira a meio da manhã e estraga o que estava bom.
Nenhuma plataforma de reservas sabe o que é uma maré. Não é culpa delas. Foram feitas para camas.
Quando se olha para o dia de uma escola de surf, percebe-se depressa que a reserva é a parte pequena. O resto é o que ninguém vê: saber se o mar de amanhã serve para iniciantes ou só para quem já anda de pé. Ter fatos e pranchas do tamanho de quem vem. Ter instrutores suficientes para o número de alunos que a lei permite por instrutor, que não é o mesmo para crianças e para adultos. Ter o termo de responsabilidade assinado por cada aluno, e pelo tutor quando é menor. Saber que a maré das nove enche a praia e a das duas deixa um banco de areia onde a onda quebra melhor.
Um sistema que trate isso como se fosse um quarto obriga a escola a fazer tudo à parte: uma folha de cálculo para o material, um grupo de conversa para a equipa, um site de previsão aberto noutro separador, e a cabeça a juntar as três coisas às sete da manhã.

Comprar uma aula devia ser tão fácil como marcar uma noite de hotel, mas com a informação do mar que nenhuma plataforma dá.
Este ano tem sido intenso. Abrimos em cima do Verão, que é a pior altura possível para pedir a alguém que aprenda um sistema novo, e durante a época alta mexemos no produto quase todos os dias.
Isso teve um custo, e não é justo escondê-lo: houve escolas que tiveram de reaprender coisas que já sabiam fazer, e semanas em que o painel mudou debaixo dos pés de quem estava a trabalhar. Andámos a mexer num comboio a andar.
Não foi por gosto. Um sistema que uma escola abre de manhã para trabalhar não é um produto acabado, é uma coisa viva. Mas há uma diferença entre melhorar e desarrumar, e nem sempre estivémos do lado certo dessa linha. O que garantimos é que cada erro mudou o produto e a forma como trabalhamos com quem o usa.
Estavam planeadas duas coisas para 2027. Cobrar uma mensalidade pelo software, e ficar com uma percentagem dos parceiros que cada escola arranja. Nenhuma das duas vai acontecer.
Um sistema para gerir uma escola de surf custa centenas de euros por mês, em toda a parte onde existe. O nosso é grátis, inteiro, e não conhecemos ninguém que faça o mesmo.
Gerir a equipa, o material e os alunos é o trabalho da escola. Cobrar-lhe por isso era cobrar-lhe por trabalhar. E se o restaurante do lado lhe manda clientes, o acordo é entre os dois e não passa por nós.
Cobramos por uma coisa: levar-lhe um aluno que ela não tinha. Reserva que chega pelo marketplace, ficamos com uma parte. Reserva que chega pelos canais dela, não ficamos com nada. É por origem, não por existir.
Um marketplace começa sempre com o mesmo problema: sem alunos as escolas não entram, e sem escolas os alunos não vêm. Não há maneira esperta de contornar isso. Só há uma maneira lenta, que é ir buscar procura que ainda não existe naquela praia, uma pessoa de cada vez.
Nós não queremos meter-nos entre uma escola e os clientes que já são dela. Queremos levar-lhe os outros: o que está em casa a decidir se experimenta, o que anda à procura de aulas para o filho, o que nunca a encontraria. Isso é uma maratona, e contamos estar cá muitos anos a correr.
A aplicação em Agosto de 2026: escolher a praia pelo mar que ela tem hoje, e comprar a aula que lá está à venda.
Os números do mar em bruto são uma matéria-prima. Existem, chegam de várias origens, e por si só não dizem nada sobre uma praia em concreto. O que decide é o cálculo que se faz por cima deles — e esse é nosso.
Recebemos os dados em bruto de mais do que uma origem e fazemos as contas cá dentro. Não é detalhe de engenharia: é a diferença entre poder corrigir e ter de esperar. Se um número nosso sair errado, mexemos no nosso cálculo e fica corrigido. Se o cálculo fosse de outra pessoa, herdávamos a verdade dela — incluindo os enganos — e a única coisa que podíamos fazer era esperar que alguém os arranjasse.
E o cálculo é por praia, com o que se sabe sobre aquela praia: que ondulações é que o cabo lhe tira e quais é que a apanham de frente, a que maré é que ela abre e a que maré é que fecha, porque é que o mesmo vento é terral numa ponta e entra de mar duzentos metros ao lado. Isso não vem em nenhuma tabela. Aprende-se praia a praia, com quem lá anda.