Chegaste à praia e estava perfeito. Voltaste três horas depois e não havia nada. Não foi azar nem foi a ondulação — foi a maré, e há uma forma simples de a ler antes de sair de casa.
6 de agosto de 2026 · 4 min de leitura
Esta mesma praia, seis horas mais tarde, tem metade da areia. É a única variável do surf que muda todos os dias a horas certas — e que podes saber com antecedência de meses.
Toda a gente que começa passa por isto: um dia estava bom, voltas na semana seguinte à mesma hora com a mesma previsão, e não presta. Quase sempre a culpa não é da ondulação. É da maré.
Na costa continental a amplitude média da maré astronómica ronda os 2,1 metros. Em marés vivas — nos dias à volta da lua nova e da lua cheia, quando o Sol e a Lua puxam na mesma direcção — chega perto dos 3,6 m, e em Lisboa mediu-se acima dos 4 m. Em marés mortas — nos quartos crescente e minguante, com o Sol e a Lua a anularem-se — fica entre 1,4 e 2,5 m.
Traduzido para quem está na areia: numa praia plana da Caparica ou de Peniche, três metros de altura de água são dezenas de metros de areia que aparecem e desaparecem. A onda rebenta noutro sítio, sobre outro fundo, com outra inclinação. Não é a mesma praia.
Portugal tem maré semi-diurna — duas cheias e duas vazias por dia. Entre uma cheia e a vazia seguinte passam cerca de 6 horas e 12 minutos. E como o ciclo é lunar e não solar, a maré atrasa-se cerca de 50 minutos por dia.
É por isso que a tua praia boa das 10h de sábado é a tua praia boa das 11h de domingo. Não mudou nada — a Lua é que chegou mais tarde.
A maioria dos principiantes pensa em cheia e vazia. Quem surfa pensa sobretudo no movimento:
Esta é a parte que os guias genéricos costumam estragar. Não existe "a maré certa para o surf" — existe a maré certa para aquele fundo:
A regra prática, e é honesta: a única fonte fiável sobre a maré de uma praia é quem trabalha nela. Um instrutor local sabe em dez segundos o que um modelo não sabe em cem linhas.
No mapa e nas páginas de cada pico mostramos a altura da maré hora a hora, com uma convenção que não muda: verde quando está a vazar e azul quando está a encher. Também te dizemos quando a maré é a peça que falta para o dia ficar bom.
O que não te dizemos é qual a maré ideal de cada praia por adivinhação. Onde uma escola nos disse a sua janela de maré, mostramos essa — dela, com o nome dela. Onde ninguém nos disse, dizemos que não sabemos. Um palpite apresentado como facto é pior do que uma lacuna assumida, sobretudo quando o que está em causa é meteres-te na água.
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