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ONFIRE: vinte e três anos a escrever o surf português

Nasceu em 2003, feita por amigos que andavam na água. Continua a sair em papel de dois em dois meses. Nesse intervalo desapareceram títulos de surf com décadas de história. A ONFIRE não.

23 de agosto de 2026 · 5 min de leitura

Revista de surf portuguesa. Desde 2003, de dois em dois meses, em papel.

Em 2003, um grupo de amigos que, nas palavras deles próprios, viviam e respiravam surf, decidiu fazer uma revista. Não era um plano de negócio. Era gente que andava na água e achava que faltava alguém a escrever aquilo. Chamaram-lhe ONFIRE.

Vinte e três anos depois continua a sair, impressa, de dois em dois meses, com direção de Nuno Bandeira e edição de António Nielsen. Escreve-se isto sem drama nenhum, mas convém parar em cima da frase. Nesse mesmo intervalo desapareceram títulos de surf com décadas atrás deles e dinheiro atrás disso. A ONFIRE não fechou.

O que é sobreviver ao papel

Fazer uma revista de surf em Portugal nunca foi negócio fácil. O mercado é pequeno, os anunciantes são poucos, e a internet levou primeiro os classificados, depois as notícias, e por fim a paciência de quem lia. A resposta da ONFIRE não foi fugir do papel. Foi perceber para que é que o papel ainda serve.

Um resultado de bateria lê-se no telemóvel e esquece-se em duas horas. Uma reportagem grande, com fotografia a sério, com espaço para uma imagem respirar e para um parágrafo demorar o tempo de que precisa, é outro animal. Continua a valer uma revista, e continua a ser a única forma de contar certas histórias.

Em paralelo montaram a casa digital: site desde 2009, refeito em 2012, notícias diárias, e o arquivo a folhear online. O site não substituiu a revista. Ficaram os dois, a fazer trabalhos diferentes. É a decisão mais difícil de tomar e a mais fácil de adiar.

Fazem-se revistas para durar dois meses. Esta durou vinte e três anos.A ONFIRE, desde 2003

O que é a ONFIRE

É a revista de surf portuguesa. Bimestral, em papel, desde 2003, com um site diário ao lado desde 2009. Direcção de Nuno Bandeira, edição de António Nielsen. Não há outra em Portugal com este tempo de vida, e há muito poucas no mundo.

Cobre a alta competição portuguesa e o surf mundial que interessa a quem surfa cá — em português, escrito de raiz, sem ser tradução de ninguém. E cobre depois tudo aquilo que separa uma revista de um mostrador de resultados: fotografia, que é metade do que a casa é; pranchas e o que se lhes muda; cinema de surf; viagem; e as pessoas. Não é só uma folha de bairro nem só imprensa estrangeira traduzida. É as duas coisas ao mesmo tempo, que é exactamente o sítio onde o surf português vive.

Teresa Bonvalot e Francisca Veselko no pódio do Ballito Pro de 2026, com troféus e a bandeira de Portugal
Teresa Bonvalot e Francisca Veselko, uma final cem por cento portuguesa num circuito mundial. Fotografia de Pierre Tostee, publicada na ONFIRE.

Há uma coisa que se vê melhor com duas capas ao lado uma da outra. Em 2005, a edição 14 trazia à cabeça «Xpecial Fotografia». Em 2020, a 78 chamava-se «The Water: Photography Issue». Quinze anos separam as duas, o desenho não tem uma linha em comum, e a obsessão é exactamente a mesma. É por isto que revistas destas duram: mudam tudo menos aquilo em que acreditam.

Pilha de edições da ONFIRE Surf Magazine, com a capa número 15 de Maio e Junho de 2005 e a revista irmã Girlz
ONFIRE nº15 · Maio-Junho 2005, sobre o arquivo da casa. Na lombada: ano II, bimestral, três euros. Ao lado, a Girlz, a revista irmã.
Capa da ONFIRE número 14, Março e Abril de 2005, com o título Xpecial Fotografia e Cascais cinco metros plus
Nº14 · Março-Abril 2005. «Xpecial Fotografia. Cascais cinco metros plus.»
Capa da ONFIRE número 78, de 2020, intitulada The Water, Photography Issue
Nº78 · 2020. «The Water. Photography Issue.» Quinze anos depois, a mesma teimosia.

Vinte e três anos são um arquivo

Esta é a parte que se percebe tarde. Uma publicação que dura mais de duas décadas deixa de ser uma revista e passa a ser a memória escrita de uma modalidade num país.

Quem quiser saber quem surfava a Ericeira em 2007, que pranchas se partiam nesse ano, quem ganhou o quê e, sobretudo, como é que aquilo foi contado na altura e não em retrospectiva, tem um sítio para ir. Sem a ONFIRE, esses anos do surf português existiriam quase só na cabeça de quem lá esteve. E a cabeça de quem lá esteve é o arquivo menos fiável que há.

Um site guarda o que aconteceu. Uma revista guarda também o que se achava na altura que aquilo queria dizer. São coisas diferentes, e a segunda é a primeira a desaparecer quando ninguém a imprime.

A ONFIRE é parceira da Surf Booking.

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